1. Ainda uma vez — Adeus
Antonio Goncalves Dias

2.Ismália
Alphonsus de Guimaraens

 

3.Soneto de Fidelidade
Vinicius de Moraes

4.Não sei quantas almas tenho
Fernando Pessoa

5.AUTOPSICOGRAFIA
Fernando Pessoa

6.The Most Beautiful Thing
Debora Daher

7.Caminhos traçados por estrelas preguiçosas que guiam homens medíocres
Debora Daher

8.Chegadas e Partidas sem Despedidas
Debora Daher

9.Chegadas e Partidas sem Despedidas Versão II
Debora Daher

10.Original Sin
Debora Daher

11.Mário Quintana

12.Ontem à noite fumei você
Ênio Vuono

13.Ausência
(Drummond)

 

 

 

1. Ainda uma vez — Adeus
Antonio Goncalves Dias

I

Enfim te vejo! — enfim posso,
Curvado a teus pés, dizer-te,
Que não cessei de querer-te,
Pesar de quanto sofri.
Muito penei! Cruas ânsias,
Dos teus olhos afastado,
Houveram-me acabrunhado
A não lembrar-me de ti!

II

Dum mundo a outro impelido,
Derramei os meus lamentos
Nas surdas asas dos ventos,
Do mar na crespa cerviz!
Baldão, ludíbrio da sorte
Em terra estranha, entre gente,
Que alheios males não sente,
Nem se condói do infeliz!

III

Louco, aflito, a saciar-me
D’agravar minha ferida,
Tomou-me tédio da vida,
Passos da morte senti;
Mas quase no passo extremo,
No último arcar da esp’rança,
Tu me vieste à lembrança:
Quis viver mais e vivi!

IV

Vivi; pois Deus me guardava
Para este lugar e hora!
Depois de tanto, senhora,
Ver-te e falar-te outra vez;
Rever-me em teu rosto amigo,
Pensar em quanto hei perdido,
E este pranto dolorido
Deixar correr a teus pés.

V

Mas que tens? Não me conheces?
De mim afastas teu rosto?
Pois tanto pôde o desgosto
Transformar o rosto meu?
Sei a aflição quanto pode,
Sei quanto ela desfigura,
E eu não vivi na ventura...
Olha-me bem, que sou eu!

VI

Nenhuma voz me diriges!...
Julgas-te acaso ofendida?
Deste-me amor, e a vida
Que me darias — bem sei;
Mas lembrem-te aqueles feros
Corações, que se meteram
Entre nós; e se venceram,
Mal sabes quanto lutei!

VII

Oh! se lutei!... mas devera
Expor-te em pública praça,
Como um alvo à populaça,
Um alvo aos dictérios seus!
Devera, podia acaso
Tal sacrifício aceitar-te
Para no cabo pagar-te,
Meus dias unindo aos teus?

VIII

Devera, sim; mas pensava,
Que de mim t’esquecerias,
Que, sem mim, alegres dias
T’esperavam; e em favor
De minhas preces, contava
Que o bom Deus me aceitaria
O meu quinhão de alegria
Pelo teu, quinhão de dor!

IX

Que me enganei, ora o vejo;
Nadam-te os olhos em pranto,
Arfa-te o peito, e no entanto
Nem me podes encarar;
Erro foi, mas não foi crime,
Não te esqueci, eu to juro:
Sacrifiquei meu futuro,
Vida e glória por te amar!

X

Tudo, tudo; e na miséria
Dum martírio prolongado,
Lento, cruel, disfarçado,
Que eu nem a ti confiei;
“Ela é feliz (me dizia)
“Seu descanso é obra minha.”
Negou-me a sorte mesquinha...
Perdoa, que me enganei!

XI

Tantos encantos me tinham,
Tanta ilusão me afagava
De noite, quando acordava,
De dia em sonhos talvez!
Tudo isso agora onde pára?
Onde a ilusão dos meus sonhos?
Tantos projetos risonhos,
Tudo esse engano desfez!

XII

Enganei-me!... — Horrendo caos
Nessas palavras se encerra,
Quando do engano, quem erra.
Não pode voltar atrás!
Amarga irrisão! reflete:
Quando eu gozar-te pudera,
Mártir quis ser, cuidei qu’era...
E um louco fui, nada mais!

XIII

Louco, julguei adornar-me
Com palmas d’alta virtude!
Que tinha eu bronco e rude
C’o que se chama ideal?
O meu eras tu, não outro;
Stava em deixar minha vida
Correr por ti conduzida,
Pura, na ausência do mal.

XIV

Pensar eu que o teu destino
Ligado ao meu, outro fora,
Pensar que te vejo agora,
Por culpa minha, infeliz;
Pensar que a tua ventura
Deus ab eterno a fizera,
No meu caminho a pusera...
E eu! eu fui que a não quis!

XV

És doutro agora, e pr’a sempre!
Eu a mísero desterro
Volto, chorando o meu erro,
Quase descrendo dos céus!
Dói-te de mim, pois me encontras
Em tanta miséria posto,
Que a expressão deste desgosto
Será um crime ante Deus!

XVI

Dói-te de mim, que t’imploro
Perdão, a teus pés curvado;
Perdão!... de não ter ousado
Viver contente e feliz!
Perdão da minha miséria,
Da dor que me rala o peito,
E se do mal que te hei feito,
Também do mal que me fiz!

XVII

Adeus qu’eu parto, senhora;
Negou-me o fado inimigo
Passar a vida contigo,
Ter sepultura entre os meus;
Negou-me nesta hora extrema,
Por extrema despedida,
Ouvir-te a voz comovida
Soluçar um breve Adeus!

XVIII

Lerás porém algum dia
Meus versos d’alma arrancados,
D’amargo pranto banhados,
Com sangue escritos; — e então
Confio que te comovas,
Que a minha dor te apiade
Que chores, não de saudade,
Nem de amor, — de compaixão,

 

2.Ismália
Alphonsus de Gui
maraens



Quando Ismália enlouqueceu,
Pôs-se na torre a sonhar...
Viu uma lua no céu,
Viu outra lua no mar.

No sonho em que se perdeu,
Banhou-se toda em luar...
Queria subir ao céu,
Queria descer ao mar...

E, no desvario seu,
Na torre pôs-se a cantar...
Estava perto do céu,
Estava longe do mar...

E como um anjo pendeu
As asas para voar...
Queria a lua do céu,
Queria a lua do mar...

As asas que Deus lhe deu
Ruflaram de par em par...
Sua alma subiu ao céu,
Seu corpo desceu ao mar...

3.Soneto de Fidelidade
Vinicius de Moraes



De tudo ao meu amor serei atento
Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto
Que mesmo em face do maior encanto
Dele se encante mais meu pensamento.

Quero vivê-lo em cada vão momento
E em seu louvor hei de espalhar meu canto
E rir meu riso e derramar meu pranto
Ao seu pesar ou seu contentamento

E assim, quando mais tarde me procure
Quem sabe a morte, angústia de quem vive
Quem sabe a solidão, fim de quem ama

Eu possa me dizer do amor (que tive):
Que não seja imortal, posto que é chama
Mas que seja infinito enquanto dure.


4.Não sei quantas almas tenho
Fernando Pesso
a


Não sei quantas almas tenho.
Cada momento mudei.
Continuamente me estranho.
Nunca me vi nem acabei.
De tanto ser, só tenho alma.
Quem tem alma não tem calma.
Quem vê é só o que vê,
Quem sente não é quem é,
Atento ao que sou e vejo,
Torno-me eles e não eu.
Cada meu sonho ou desejo
É do que nasce e não meu.
Sou minha própria paisagem;
Assisto à minha passagem,
Diverso, móbil e só,
Não sei sentir-me onde estou.

Por isso, alheio, vou lendo
Como páginas, meu ser.
O que sogue não prevendo,
O que passou a esquecer.
Noto à margem do que li
O que julguei que senti.
Releio e digo : "Fui eu ?"
Deus sabe, porque o escreveu.


5.AUTOPSICOGRAFIA
Fernando Pessoa

 
O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.

E os que lêem o que escreve,
Na dor lida sentem bem,
Não as duas que ele teve,
Mas só a que eles não têm.

E assim nas calhas de roda
Gira, a entreter a razão,
Esse comboio de corda
Que se chama coração.
 

6.The Most Beautiful Thing

Debora Daher


A cada época da vida encontramos uma pessoa que nos completa. Ela surge do nada e de repente se torna mais que presente, se torna necessária.
Você a ama tanto que se torna dependente. Ela não te faz rir quando você está triste, derrama lágrimas junto. Quando ela está triste, procura alegria em você. Mas não compartilha apenas dor. Se alegre, faz questão de compartilhar risos. Mais do que querer ensinar, se preocupa em aprender.
É impossível lembrar de bons momentos sem que eles estejam presentes.
Mas de repente elas partem, por isso marcam época.
E levam consigo um pouco de nós. Risos, choros, confidências, segredos, momentos engraçados...
No início, movidos pela paixão, ficamos com raiva e nos sentimos roubados. Passado um tempo, vemos que elas tem maiores necessidades, assim como nós.
E a liberdade que nos proporcionaram, também fizeram com que se tornassem livres. E é chegada a hora de espalharem alegria em outro lugar e se tornarem amigos de outras pessoas.
São nesses momentos que percebo o quanto é bom ter lembranças. Elas me proporcionam o mais belo dos sentimentos, a saudade.

Postado por ... às 5:12 AM
 

7.Caminhos traçados por estrelas preguiçosas que guiam homens medíocres
Debora Daher

Não existe falsidade maior que aquela propagada pelo brilho de uma estrela.
Há tempos que não vive mais. Mas ainda se dedica a espalhar seu brilho a quem ainda não sabe de sua real condição.
Tão falsa, que brilha apenas em lugares desconhecidos e quando descoberta, parte para algum lugar mais distante.
O único intutio de uma estrela é seduzir casais de tolos apaixonados.
Só tolos se guiam por estrelas. Guiam-se por algo que nem sabe o próprio caminho. Um ser que mesmo após a morte não sabe aonde descansar.
A aqueles que lhes fazem pedidos. as estrelas reservam apenas dúvidas. Tão típicas de quem as olha e de quem as deseja.

 
8.Chegadas e Partidas sem Despedidas
Debora Daher

Sempre estudei violino. Tocava muitíssimo bem. Também pudera, tantos anos passados dentro de um conservatório. Oras, eu teria que ter aprendido.Até conhecê-la, achava que existia apenas o violino e suas notas.Ainda lembro do dia em que me apaixonei por suas lindas e brancas pernas tortas. Estávamos em uma livraria. Ela lendo Chopra e eu... Bem, tentando ler Murakami.Tentando parecer inteligente, perguntei a ela se conhecia Murakami.- Sim, ele faz belíssimas bolsas, respondeu.Eu sem entender nada, apenas a olhei fixamente.- Você disse, Murakami, designer da Louis Vuitton, respondeu bastante confusa.Dei uma risada nervosa, tão linda e tão fútil, pensei. Se não estivesse tão enfeitiçado por aquela garota, certamente a teria deixado falando sozinha. Porém, expliquei que se tratava de um escritor japonês e tal. E principalmente, que certamente não estávamos falando da mesma pessoa.- Japonês é tudo igual mesmo, rostos, nomes, ela disse.Quanta futilidade! Nos encaramos um pouco. Convidei-a para tomar algo. Pedimos cerveja. Ela tomou no gargalo, sem o menor embaraço. Conversamos sobre livros (dessa vez sem homônimos), cinema, relacionamentos e assuntos diversos. Convidei-a para ir até o meu apartamento. Ela aceitou e nunca mais foi embora.- Toca pra mim, ela sempre dizia.Eu passava praticamente o dia todo tocando o meu violino, enquanto ela desenhava roupas e sapatos.A sensação de ver aqueles longos fios, escuros, lisos e soltos, acompanhando a sua respiração era indescritível.Também sabia que era desejado. Ela encarava o meu violino o tempo todo. Muitas vezes desistia do lápis apenas para me ver tocar.Nos últimos tempos, a excitação inicial e o amor à primeira vista foram desaparecendo. Já não me importava se ela estava presente. Era claro também que ela já não ouvia as minhas músicas com o mesmo apreço. Nem pedia mais. Não sei bem o que, e nem quando aconteceu.Já faz um mês que ela partiu. Desde então, não fixo o meu olhar em nada. Me disseram que ela anda arredia e distante também. Ninguém entende o que nos aconteceu.Mas hoje ao quebrar o meu violino, me libertei. Espero que ao cortar o seu cabelo, ela tenha se libertado também.

 


9.Chegadas e Partidas sem Despedidas Versão II
Debora Daher

Sempre gostei de desenhar. Desenhava muitíssimo bem. Também pudera, tantos anos rabiscando, só poderia ter aprimorado.
Até conhecê-lo meus únicos entretenimentos eram os lápis e os papéis. Ainda me lembro do nosso primeiro encontro. Acordei cedo e vesti uma roupa qualquer. Usava uma saia que deixava a mostra minhas horrendas e pernas tortas. Quando o vi, logo pensei que não deveria estar usando aquela roupa. Estava exibindo meus defeitos, quando deveria tê-los escondido.Ainda me lembro do dia em que me apaixonei por suas lindas e brancas mãos calejadas. Estávamos em uma livraria. Eu lendo Chopra e ele, vagando em busca de um livro interessante. Depois de um diálogo estranho e desconexo, do qual pouco me recordo, mas tento transcrever, no qual discutíamos heterônimos, fomos ao bar. Na tentativa de se aproximar me perguntou se conhecia Murakami. Respondi sem pensar:
- Sim, ele faz belíssimas bolsas.
Ele me olhava surpreso, fato que me levou a complementar a frase.
- Você disse, Murakami, designer da Louis Vuitton, respondi levemente impaciente.
Deu uma risada engraçada antes de começar a desfazer o mal entendido. Ele se referia a um escritor japonês. E deixou bem claro que não estávamos falando da mesma pessoa, mas a essa altura já estava bem consciente disso. Como já contado, fomos tomar algo. Eu pedi cerveja, estava quente, pelo menos eu me sentia assim. Fomos para o seu apartamento e nunca mais fui embora. Fui envolvida pelas suas grandes notas. Poderia passar o resto da minha vida ouvindo suas grandes mãos sendo tocadas. Diversas vezes abandonei meu lápis para ouvi-lo tocar. Ele tocava para mim e eu adorava aquilo. Nos últimos tempos, a excitação inicial e o amor à primeira vista foram desaparecendo. Já não me importava se ele estava presente. Era claro também que ele já não tocava para mim com o mesmo apreço. Nem me tocava mais. Não sei bem o que, e nem quando aconteceu. Já faz um mês que ele partiu. Desde então, não fixo o meu olhar em nada. Disseram-me que ele anda arredio e distante também. Ninguém entende o que nos aconteceu. Mas hoje ao cortar meu cabelo, me libertei. Espero que ao quebrar o violino, ele tenha se libertado também.


10.Original Sin
Debora Daher


Deito-me com os sedutores
Aguardo os sinceros
Levanto-me com os proibidos
Fantasio os misteriosos
Contemplo os improváveis
Convivo com os impossíveis

Postado por ... às 2:
 

 

11.Mário Quintana


"Eu tenho saudades de tudo que marcou a minha vida .
Quando vejo retratos, quando sinto cheiros, quando escuto uma voz, quando me lembro do passado, eu sinto saudades...
Sinto saudades de amigos que nunca mais vi, de pessoas com quem não mais falei ou cruzei...
Sinto saudades da minha infância, do meu primeiro amor, do meu segundo, do terceiro, do penúltimo e daqueles que ainda vou vir a ter, se Deus quiser...
Sinto saudades do presente, que não aproveitei de todo, lembrando do passado e apostando no futuro...
Sinto saudades do futuro, que se idealizado, provavelmente não serádo jeito que eu penso que vai ser...
Sinto saudades de quem me deixou e de quem eu deixei, de quem disse que viria e nem apareceu; de quem apareceu correndo, sem me conhecer direito, de quem nunca vou ter a oportunidade de conhecer.
Sinto saudades dos que se foram e de quem não me despedi direito; daqueles que não tiveram como me dizer adeus; de gente que passou na calçada contrária da minha vida e que só enxerguei devislumbre; de coisas que eu tive e de outras que não tive mas quis muito ter; de coisas que nem sei que existiram mas que se soubesse, decerto gostaria de experimentar...
Sinto saudades de coisas sérias, de coisas hilariantes, de casos, de experiências...
Sinto saudades do cachorrinho que eu tive um dia e que me amava fielmente, como só os cães são capazes de fazer, dos livros que li e que me fizeram viajar, dos discos que ouvi e que me fizeram sonhar, das coisas que vivi e das que deixei passar, sem curtir na totalidade.
Quantas vezes tenho vontade de encontrar não sei oque, não sei aonde, para resgatar alguma coisa que nem sei o que é e nem onde perdi... Vejo o mundo girando e penso que poderia estar sentindo saudades em japonês, em russo, em italiano, em inglês, mas que minha saudade, por eu ter nascido brasileiro, só falar português embora, lá no fundo, possa ser poliglota."

12.Ontem à noite fumei você( Ênio Vuono)

Ontem à noite fumei você,
tirei você da cabeça.
Te enrolei dentro de um papel de seda.
Te fechei como se fecha o papel das balas,
E fumei você...
Todinha....

Lentamente viraste fumaça.
E da fumaça formou-se uma nuvem...
Subi nela e viajamos juntos...
Aí pelo infinito , pelo que não se acaba...
Apenas evapora-se
E mistura-se ao ar...



Este poema pertence ao meu querido amigo Ênio Vuono, poeta, escritor, ex produtor musical, produziu a banda Dorsal Atlântica e os Secos e Molhados, foi locutor do programa Rádio Corsário ,em Floripa e muitas coisas mais. Trabalhei com ele em sua loja de discos de vinil Enio Vuono Discos, no Ipiranga. Quem souber o paradeiro dele , email e outras coisas favor me enviar , serei eternamente agradecida.

O Poema abaixo peguei no orKut da Renata.....
 

13.Ausência
(Drummond)

Por muito tempo achei que a ausência é falta.
E lastimava, ignorante, a falta.
Hoje não a lastimo.
Não há falta na ausência.
A ausência é um estar em mim.
E sinto-a, branca, tão pegada, aconchegada nos meus braços,
que rio e danço e invento exclamações alegres,
porque a ausência, essa ausência assimilada,
ninguém a rouba mais de mim.